Enfoque Cristão

02/10/2006 10:47

LIVRE PARA SEMPRE (Mc 2.1-12)




E a história do paralítico poderia ter sido assim:

Trinta anos se passaram desde então, mas posso me recordar de tudo como se fosse hoje. Afinal naquele dia eu renascia para a vida, para minha família, para meus amigos, para Deus.
Antes daquele dia já haviam passado dez anos desde aquele fatídico acidente. A lembrança daquele episodio rondava minhas memórias. Éramos seis amigos inseparáveis. Desde a infância fomos criados praticamente juntos, vizinhos uns dos outros. Divertíamos muito nas ruas de Cafarnaum. Saímos para pescar, brincar, aprontar, fazer coisas que toda criança e adolescente gosta de fazer quando acha que sabe tudo, mas ainda não sabe nada. Íamos juntos também a sinagoga aprender a Tora e cumprir nosso papel de bons jovens judeus. Isto não tinha muita graça, mas nossos pais faziam questão de nos dar uma educação judaica, e portanto, lá íamos nós pra escola judaica.
Meus amigos, Tiago, Jonatas, Calebe, Samuel e José sempre me seguiam em nossas brincadeiras. Eu era uma espécie de líder e devido a minha coragem, ou tolice, eles deixavam que eu sempre liderasse ou tomasse a iniciativa das brincadeiras.
Mas naquele fim de tarde de uma sexta-feira de verão eu teria preferido nunca ter sido o líder do que ia acontecer. Afinal isto iria marcar a minha vida e a de Samuel para sempre.
Éramos seis adolescentes que estavam aprontando escondidos de nossos pais. Eu havia conseguido “tirar por empréstimo” um belo garrafão do bom vinho de meu pai. Apenas ele não sabia deste empréstimo. Fomos para o alto da colina, onde íamos costumeiramente nadar, contar piadas e se divertir. Ali havia uma queda D’água de cerca de 20 metros de altura. E nunca antes alguém havia feito à idiotice de saltar de lá, até aquele dia.
Depois de alguns goles de vinho, ou quem sabe de muitos goles. Eu desafiei aos meus amigos para saltar naquela cachoeira. O mais homem deveria me seguir. Eles não queriam. Eu insisti. Olhei para o que estava mais perto de mim e desafiei: -“vamos Samuel, coragem! Você é um homem ou um saco de batatas?” Eu sabia que Samuel não suportaria rejeitar tal convite, afinal de todos, ele era o que tinha o estopim mais curto.
Ele me respondeu: -“Claro, Judá, mas só se você for junto. Só se pularmos juntos no mesmo instante”. A turma, caiu na gargalhada. Eu achei que ninguém toparia o desafio, mas Samuel topou, e agora eu estava no meio da encrenca e não poderia refugar. O que eles diriam de mim?
Preparamos-nos, alinhamo-nos e quando Jonatas deu um forte assobio pulamos os dois para mergulharmos, eu no dia mais triste de minha vida, e Samuel no seu último dia de vida.
Com a força do impacto nas águas, eu e Samuel batemos forte em pedras que existiam no fundo do rio. Imediatamente senti minhas pernas adormecerem e comecei a me afogar. Os outros três amigos, Tiago, Calebe e José haviam ficado junto às margens do pequeno rio. Foi a minha sorte, ou o meu azar. Eles pularam na água e me puxaram. Estava consciente, apesar de não sentir as minhas pernas. Consciente o bastante para perceber que a água estava manchada de sangue, e que Samuel não havia subido a tona até então. Eles mergulharam de novo e conseguiram também puxar o Samuel. Mas este estava inconsciente. Inconsciente para sempre. Que tragédia, Samuel, um jovem de 17 anos, igual a mim, havia morrido ao bater sua fronte em uma pequena rocha sob as águas.
Quanto a mim, nunca mais pude andar até aquele dia em Cafarnaum. Meus pais tentaram de tudo. Levaram-me aos sacerdotes, procuraram os médicos da região. Mas o diagnóstico era terrível. Eu havia rompido uma das vértebras da coluna, e nunca mais iria andar. Mas o pior, era a dor da consciência. Eu me sentia totalmente responsável pela morte de Samuel. Preferiria ter morrido também. A partir daquele dia todos me olhavam com pena e ao mesmo tempo com desprezo. Os religiosos diziam a meus pais que eu era um pecador. Nossos vizinhos não conversavam mais com meus pais. Por algum tempo, meus outros amigos foram proibidos de conversar comigo. Mas isto foi por pouco tempo. Logo eles se encontrariam comigo novamente. Nossa amizade era muito forte, e eles, além de meus pais, foram os únicos a me perdoarem depois do acidente. Mas para mim isto não bastava. Mais do que voltar a andar eu desejava sentir, provar, ter a certeza do perdão de Deus. Há como queria me sentir perdoado e liberto daquele pesadelo que me atormentava todas as noites. Eu matei o Samuel. Com minha estupidez, com minha precipitação eu matei meu grande amigo.
Treze anos já haviam se passado desde então. Nossas vidas seguiam conforme se poderia imaginar. Nada de novo, eu era dependente de todos. Não poderia me casar, ter filhos, trabalhar, me auto-sustentar. Era um inválido. Um paralítico. Os únicos que me ajudavam eram meus quatro amigos: Calebe, José, Jonatas e Tiago. Sempre que eu queria sair, dar um volta, respirar um ar diferente. Lá estavam eles me carregando naquela maca, que havia se tornado o meu mundo. Mas tudo isto até aquele dia. Aquele maravilhoso dia.
Numa manha do verão judaico, havia chegado a noticia de um jovem, o mais recente morador de Cafarnaum. Um homem mais ou menos da minha idade. Mas ele era diferente. Alguns diziam que ele era especial. Ele era chamado de Messias, de Filho de Deus. Corria a noticia que ele havia curado perto dali um leproso. Uma cura sensacional, nunca jamais vista, feita daquela forma. Meus amigos vieram me animar: “Vamos, vamos até ele. Coragem!!, Vamos”.
Coragem era algo que eu havia deixado no fundo daquele rio. Depois de insistirem pensei: “que mal há, o que tenho a perder?”, “Vamos”, disse eu, “Já que insistem, vamos”.
Eles me levantaram pela maca e me conduziram até a casa daquele moço nazareno. Chegando na entrada de uma casa simples, nada diferente das outras casas da periferia, a não ser pela enorme multidão que estava dentro e fora do ambiente., ouvia muitos gritos de jubilo, de alegria. Uma alegria contagiante. Gritos de aleluia, de glória a Deus. As pessoas estavam tomadas de fé, algo sobrenatural estava acontecendo naquela casa, e eu..., eu não podia entrar. Primeiro, porque era prisioneiro de minha maca, segundo, porque uma grande multidão estava a nossa frente e transpor aquilo era impossível.
Mas quem tem amigos como eu tenho é uma pessoa bem-aventurada. Eles não desistiram de me apresentar ao Nazareno. As pessoas o chamavam de Jesus de Nazaré. Deram à volta comigo, e atrás da casa descobriram uma escada. “Eles são loucos” pensei comigo, mas o que e a loucura diante da fé? José e Calebe subiram primeiro, e pegaram a maca comigo pelas pontas. Jonatas e Tiago ficaram embaixo e sustentaram o meu peso empurrando para cima. Finalmente, depois de muito esforço e suor eu estava com meus amigos em cima do telhado. A operação “ver Jesus” estava na metade. Caminharam com cuidado por cima daquelas frágeis telhas. Até hoje fico pensando como é que o telhado agüentou todo aquele peso sem se romper. Acho que até nisto a mão de Deus estava nos ajudando. Eles pararam no centro do telhado e começaram a afastar algumas telhas. Logo, de cima, pude ver que Jesus estava pregando bem abaixo de nós. Ele, junto com a multidão, de dentro da casa olhou para cima. Não sei o que se passou na mente dele neste momento, só sei que respirei fundo e amarrado pelas cordas na minha maca fui sendo abaixado progressivamente até chegar ao chão. À medida que era abaixado, lágrimas desciam também em minha face. A lembrança de Samuel e do dia de minha tragédia era tão forte em minha mente. Vários pensamentos vieram a minha mente: “Será que sou digno de estar na presença dele?” , “Sou um pecador, meu Deus, estou perdido!”
Quando cheguei ao solo, contemplei a sua face e ela não me parecia séria nem carrancuda, da mesma maneira que era as dos mestres fariseus. Mas, pelo contrário, sua face irradiava um doce sorriso de alguém que parece estar inebriado de amor. Não vi nenhuma condenação dele. Nenhum gesto de repúdio. Quem lhe contou o meu caso? Como ele poderia saber o que se passava em minha consciência, quando me disse firme e decididamente: “os teus pecados estão perdoados”? Ninguém poderia tê-lo dito. Ninguém! Somente alguém vindo de Deus, ou o próprio Deus poderia saber de meu tormento. Como aquelas palavras penetraram nos meus ouvidos e atingiram o centro de minha alma! Após ouvir isto fui tomado de uma fé tremenda, e realmente cri naquele perdão. Cri a tal ponto que de mim caiu um peso enorme e me sentia muito mais leve.
Mas não parou por aí. Se tivesse parado ainda sim eu estaria feliz, leve, perdoado, liberto de meu pesadelo. Mas ele ousou mais. Ao perceber os pensamentos que pairavam na mente dos mestres fariseus ele surpreendeu todos, e a mim ao dizer: “para que saibais que o Filho do Homem tem sobre a terra autoridade para perdoar pecados, eu te mando: Levanta-te, toma o teu leito e anda”. De repente estas palavras tomaram forma dentro de mim como uma energia que não podia controlar. Senti meus ossos estralarem, minha coluna chegando-se no lugar. Senti a vértebra quebrada sendo soldada por um poder enorme. Meus nervos atrofiados se soltando. Os músculos enrijecendo, e quando me dei por conta, sem explicação, simplesmente estava de pé, chorando. Choro não de tristeza, nem de dor. Mas de júbilo, de alegria no Espírito, de alguém que tinha absoluta certeza de que a vida a partir dali, de fato, começara e nunca mais seria a mesma.
Hoje, sou velho, mas me recordo plenamente do gesto de meus amigos, da coragem daquele grupo de rapazes, que desta vez fizera a coisa certa. Recordo-me do doce olhar de Jesus e de suas palavras de mel. Desde aquele dia propus-me a segui-lo e crer em seu nome. Hoje sou realizado e pleno de bênçãos porque um dia fui apresentado, introduzido à presença do Rei.
Já se passaram trinta anos desde então, mas posso me recordar de tudo como se fosse hoje. Afinal naquele dia eu renascia para a vida, para minha família, para meus amigos, para Deus.

enviada por Pastor Afonso






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